sábado, 11 de janeiro de 2025

Até você dizer que não.

É que dói, meu bem. Eu planejei nosso encontro de alma, eu combinei comigo mesma a chance de um final feliz. Um casamento, uma família quem sabe. Eu sei que as expectativas foram minhas, mas você também me deixou criar. Eu não criei sozinha um romance, um sonho, um ar.

Eu achei que era você, que iria correr atrás de mim no aeroporto, pedindo pra eu ficar, pra eu não voar. Eu estava pronta, pela primeira vez em 10 anos, de dizer que; sim, eu fico. Eu estava pronta pra criar a coragem, pra ser, pra estar. Meu bem, eu ficaria por ti.

Não acho justo pensar que o universo, na realidade quer me dar uma lição. A lição que não se deve ir ou ficar por ninguém, além de nós mesmos. Mas o que somos nós, sem companhia? Sem amor? Ah meu bem, o universo que não me ensine essa lição, pois quero sim ter por quem ficar, por quem ir, por quem voltar.

Eu quero mãos dadas num final de tarde, eu quero cervejas em noites de calor. Eu quero ano novo na praia, domingos com amigos. Eu quero criar tudo, tudo, tudo.

E achei que era contigo que eu iria criar tudo, tudo, tudo.

E eu criaria.

Eu já planejava estar aqui no teu aniversário, irmos em shows, passearmos pelas cidades que tanto podemos gostar. Iríamos viajar, viver, sentir. Será que era pedir muito?

Foram alguns meses de espera, incontáveis dias que eu riscava no calendário. 140, 100, 90, 60, 40, 30... alguma coisa saiu do controle e eu só queria ter certeza e de novo, eu ansiei em perguntar, porque eu sabia que a tua resposta, seria o nosso fim.

Nosso fim, onde nem começo teve. Que não tivemos a oportunidade de respirar, existir, viver. Eu escrevi em notas mentais tudo o que poderíamos fazer. Anotei os filmes, as músicas, os lugares pra visitar. As cervejas pra tomar.

Enquanto eu contava dias e te esperava, a vida só continuava. E continuou pra ti, provavelmente numa sexta a noite. Onde eu ainda não estava, ainda demoraria pra chegar e você; você só abraçou o que merecia. E nesse abraço ao universo, eu deixei de existir.

Assim, de repente. Como a cinza do cigarro que voa da janela, eu também me fui. Eu não fui palpável pra ti e não seria tão cedo.

Você fechou janelas, trancou portas. Iria embora dali, com um bilhete na mão, sonhos no lixo. Deixando pra trás todas as possibilidades de nós dois.

Mas eu deveria já saber, era tempo, muito tempo em espera e dessa vez, quem tinha pressa, era você. Não poderia esperar a minha volta. Não poderia apostar fichas em algo que ainda não se enxergava.

Você preferiu nem tentar. Nem amar. Ir embora era muito mais fácil do que esperar. E se foi, como o nosso carnaval ao longo dos anos.

Só que dessa vez acho que foi a última em que o nosso bloquinho, quase desfilou.

 

Porto, 11 de Janeiro de 2025, 16:01

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