quarta-feira, 18 de junho de 2025

Solitude.

A solidão é uma sala vazia, onde a luz ainda acesa numa madrugada, ecoa tanto que faz duvidar se há silêncio ou barulho.

Eu que caminho por esses cômodos, encontro fantasmas de dias tumultuados e sentimentos, ainda que já naufragados, percorrem na solidão dos dias que insistem em acontecer.

Já desgostei mais desse tempo de solitude. Já enterrei em mim muitos anseios sobre mim mesma e hoje apenas sigo, num misto entre pressa para sair de casa e ansiedade para se esconder do mundo.

Tem escorrido o proposito disso tudo – que por aqui, talvez nunca tenha existido. E dos dias que passam e ninguém vê, eu anseio vivamente ir embora.

Viver entre as sombras é doloroso. Um grito ecoando no escuro, num eterno pedido para ir embora. Permanecer onde não existe permanência e os planos pro futuro se esvaem junto de garrafas de cerveja.

Eu não faço mais questão e entre minha voz que não sai, eu também não percorro mais lugar algum. Eu deixei de ser todo o furacão e tenho tentado ser água calma, numa esperança que eu algum dia consiga ancorar.

A sala vazia, com as luzes acesas, grita em agonia um pedido de ajuda – mas ninguém vê e ninguém ouve.

Àquela que tanto queria ser vista, se torna invisível, muda. Ninguém corre pra socorrer e ninguém se lembra de ajudar.

Algumas vezes já afirmei ser sozinha, mas eu tenho certeza que dessa vez, onde um domingo inteiro se vai sem o som do telefone tocando, sem uma mensagem recebida, sem passos no corredor; é realmente o ponto mais alto da solidão.

Eu não me afogo, mas me encontro em alto mar, onde não naufrago, mas também não ancoro.

 

Porto, 27 de abril de 2025. 22:00

domingo, 2 de março de 2025

Te ver descendo as escadas.

Se eu fecho os olhos, consigo te sentir passando por mim, sentando ao meu lado e me contando qualquer história da tua vida, enquanto enche meu copo e acende teu cigarro. Eu sinto a minha mão procurando a tua e então, num milésimo de segundo, onde átomos meus encontram com átomos teus, o tempo para e o universo entra em combustão.

Nos encontramos então deitados na minha cama, como fazíamos anos atrás, encarando o mesmo velho teto, entrelaçando nossos corpos, sendo engolidos madrugada a dentro.

Você, agora, porém, se vira e me pergunta se eu lembrava há quanto tempo atrás estivemos assim pela última vez.

E eu sorrio.

Olho você e passando meus dedos pelas tuas mãos secas, respondo que já faziam 10 anos e pedi, num sussurro, que por aquela noite fizéssemos de conta que ainda tívessemos 22.

Meu coração palpitava numa leve taquicardia, a urgência saía de mim e encontrava você. Eu ansiei muitas vezes uma noite como aquela e, deitada contigo na minha cama, eu poderia te pertencer pra sempre.

Eu teria adormecido no teu ombro direito, como fazíamos anos atrás. Teria acordado com um sorriso de bom dia e te pediria, de novo, pressa.

Eu tenho sede de você.

Você me queima e eu te encaro descendo as escadas, anuncio o teu nome aos outros e de repente, só você importa. Você se aproxima e sinto a terra estremecer, você me abraça, diz olá e então, não existe mais nada além da gente.

Eu ainda sou tua.

Enquanto você incendeia tudo aqui dentro, seguimos em hemisférios diferentes e ainda, olhando nos teus olhos, eu imploro por mais.

Há muito o que explorar e te encaro no escuro pedindo caminhos. Somos iguais a antes, e ainda assim tão diferentes.

Nossos mundos colapsaram anos e anos atrás e parece que até hoje vivemos do pó cósmico que soltamos.

 

Porto, 26 de fevereiro de 2025. 13:41

sábado, 11 de janeiro de 2025

Até você dizer que não.

É que dói, meu bem. Eu planejei nosso encontro de alma, eu combinei comigo mesma a chance de um final feliz. Um casamento, uma família quem sabe. Eu sei que as expectativas foram minhas, mas você também me deixou criar. Eu não criei sozinha um romance, um sonho, um ar.

Eu achei que era você, que iria correr atrás de mim no aeroporto, pedindo pra eu ficar, pra eu não voar. Eu estava pronta, pela primeira vez em 10 anos, de dizer que; sim, eu fico. Eu estava pronta pra criar a coragem, pra ser, pra estar. Meu bem, eu ficaria por ti.

Não acho justo pensar que o universo, na realidade quer me dar uma lição. A lição que não se deve ir ou ficar por ninguém, além de nós mesmos. Mas o que somos nós, sem companhia? Sem amor? Ah meu bem, o universo que não me ensine essa lição, pois quero sim ter por quem ficar, por quem ir, por quem voltar.

Eu quero mãos dadas num final de tarde, eu quero cervejas em noites de calor. Eu quero ano novo na praia, domingos com amigos. Eu quero criar tudo, tudo, tudo.

E achei que era contigo que eu iria criar tudo, tudo, tudo.

E eu criaria.

Eu já planejava estar aqui no teu aniversário, irmos em shows, passearmos pelas cidades que tanto podemos gostar. Iríamos viajar, viver, sentir. Será que era pedir muito?

Foram alguns meses de espera, incontáveis dias que eu riscava no calendário. 140, 100, 90, 60, 40, 30... alguma coisa saiu do controle e eu só queria ter certeza e de novo, eu ansiei em perguntar, porque eu sabia que a tua resposta, seria o nosso fim.

Nosso fim, onde nem começo teve. Que não tivemos a oportunidade de respirar, existir, viver. Eu escrevi em notas mentais tudo o que poderíamos fazer. Anotei os filmes, as músicas, os lugares pra visitar. As cervejas pra tomar.

Enquanto eu contava dias e te esperava, a vida só continuava. E continuou pra ti, provavelmente numa sexta a noite. Onde eu ainda não estava, ainda demoraria pra chegar e você; você só abraçou o que merecia. E nesse abraço ao universo, eu deixei de existir.

Assim, de repente. Como a cinza do cigarro que voa da janela, eu também me fui. Eu não fui palpável pra ti e não seria tão cedo.

Você fechou janelas, trancou portas. Iria embora dali, com um bilhete na mão, sonhos no lixo. Deixando pra trás todas as possibilidades de nós dois.

Mas eu deveria já saber, era tempo, muito tempo em espera e dessa vez, quem tinha pressa, era você. Não poderia esperar a minha volta. Não poderia apostar fichas em algo que ainda não se enxergava.

Você preferiu nem tentar. Nem amar. Ir embora era muito mais fácil do que esperar. E se foi, como o nosso carnaval ao longo dos anos.

Só que dessa vez acho que foi a última em que o nosso bloquinho, quase desfilou.

 

Porto, 11 de Janeiro de 2025, 16:01