É que dói, meu bem. Eu planejei nosso encontro de alma, eu combinei comigo mesma a chance de um final feliz. Um casamento, uma família quem sabe. Eu sei que as expectativas foram minhas, mas você também me deixou criar. Eu não criei sozinha um romance, um sonho, um ar.
Eu achei
que era você, que iria correr atrás de mim no aeroporto, pedindo pra eu ficar,
pra eu não voar. Eu estava pronta, pela primeira vez em 10 anos, de dizer que; sim, eu fico. Eu estava pronta pra criar a coragem, pra ser, pra estar. Meu bem, eu
ficaria por ti.
Não acho
justo pensar que o universo, na realidade quer me dar uma lição. A lição que
não se deve ir ou ficar por ninguém, além de nós mesmos. Mas o que somos nós,
sem companhia? Sem amor? Ah meu bem, o universo que não me ensine essa lição, pois
quero sim ter por quem ficar, por quem ir, por quem voltar.
Eu quero mãos
dadas num final de tarde, eu quero cervejas em noites de calor. Eu quero ano
novo na praia, domingos com amigos. Eu quero criar tudo, tudo, tudo.
E achei que
era contigo que eu iria criar tudo, tudo, tudo.
E eu
criaria.
Eu já planejava
estar aqui no teu aniversário, irmos em shows, passearmos pelas cidades que
tanto podemos gostar. Iríamos viajar, viver, sentir. Será que era pedir muito?
Foram alguns
meses de espera, incontáveis dias que eu riscava no calendário. 140, 100, 90,
60, 40, 30... alguma coisa saiu do controle e eu só queria ter certeza e de
novo, eu ansiei em perguntar, porque eu sabia que a tua resposta, seria o nosso
fim.
Nosso fim, onde nem começo teve. Que não tivemos a oportunidade de respirar, existir,
viver. Eu escrevi em notas mentais tudo o que poderíamos fazer. Anotei os
filmes, as músicas, os lugares pra visitar. As cervejas pra tomar.
Enquanto eu
contava dias e te esperava, a vida só continuava. E continuou pra ti, provavelmente
numa sexta a noite. Onde eu ainda não estava, ainda demoraria pra chegar e você;
você só abraçou o que merecia. E nesse abraço ao universo, eu deixei de
existir.
Assim, de repente.
Como a cinza do cigarro que voa da janela, eu também me fui. Eu não fui palpável
pra ti e não seria tão cedo.
Você fechou
janelas, trancou portas. Iria embora dali, com um bilhete na mão, sonhos no lixo.
Deixando pra trás todas as possibilidades de nós dois.
Mas eu
deveria já saber, era tempo, muito tempo em espera e dessa vez, quem tinha
pressa, era você. Não poderia esperar a minha volta. Não poderia apostar fichas
em algo que ainda não se enxergava.
Você preferiu
nem tentar. Nem amar. Ir embora era muito mais fácil do que esperar. E se foi,
como o nosso carnaval ao longo dos anos.
Só que
dessa vez acho que foi a última em que o nosso bloquinho, quase desfilou.
Porto, 11 de Janeiro de 2025, 16:01
