domingo, 28 de dezembro de 2014

Da véspera de Natal.

Mas não. Não que eu possa dizer algo, mas pensei, e não, eu não disse. Eu não disse quando acordei ao seu lado, vi tua barba encostando em meus ombros e teus braços – musculosos demais para mim  - me abraçando num sutil desejo de ficar mais cinco minutos. Você não abriu a porta do quarto e sei, muito bem, que foi simplesmente por medo de encontrar meus pais que já te conhecem muito bem, mas nunca te viram segurando minha mão. Você também não quis levantar tão rápido – e era véspera de Natal. Você não quis dizer “até hoje de noite”, mas deixou um último beijo meio frio-meio quente, meio cheio de vontade de ser algo mais. Você suspirou.

Não, eu realmente não sei. Procuro você, mas é sem querer e quando não te procuro, te encontro por aí. Pode isso? Eu não te assumo e você não me assume, você só me abraça e pega a minha mão. Você desanda, diz que vai parar, diz que não, mas é sempre sim. Você não me faz café, não me traz presentes, você traz apenas você mesmo e mesmo assim está bom para mim. A gente se entende, tem alguma conexão. Será que podemos nos permitir assim tanto? Você é doce – até demais. Ainda procuro algum defeito em você que me faça desacelerar quando vou ao seu encontro, mas não acho, eu não quero encontrar. Está tudo bem, sereno, não acha meu bem?

Te encontro aqui, ali, lá. Te encontro dentro de mim, fora. Nossos encontros são sempre com finais certeiros: minha cama. Temos até fevereiro e me parece tanto tempo, mas também é pouco. Deixa eu brincar um pouco mais contigo, deixa eu te fazer rir sem querer e procurar saída quando não tem. Eu não vou ficar, eu não quero ficar. Não quero uma foto nossa num porta retrato, muito menos os dizeres de que me ama saindo de seus lábios finos. Quero guardar teu sorriso na memória e a maneira como em hipótese alguma, mesmo quando precisa, você não disfarça. Não disfarça que eu tenho te roubado uma noite por semana. Também não disfarça que quando eu sorrio, você sorri e aí sorrimos. 

De você não quero seus músculos, nem presentes, nem amor. Quero você, simplesmente. Deixa ficar então. À tarde não existimos, de noite acontecemos e tá tudo bem, eu juro. De você eu não quero parceria pra cinema, pra jantar, pra sofá a tarde inteira. Vamos continuar dividindo as cervejas. Não quero te apresentar como namorado – só de brincadeira - não quero conhecer tua família, teus planos, não preciso fazer parte da vida intima que você tem. Tá tudo bem, juro. Não preciso. Tão pouco eu preciso me apaixonar, estou indo embora e ir é bem mais fácil quando não tem o que deixar. 

Não quero ser a louca que sorri pra ti quando ninguém tá olhando, mesmo sabendo que eu sorrio. Não precisa me contar o que vai fazer de noite, com quem vai sair, se vai dividir a cama com  outra mulher – mesmo que talvez divida e eu nem goste de pensar. Mas vamos dividir o café, caso seja final de tarde, apesar de eu preferir cerveja no verão, no inverno... Sempre. Também pode ser que eu prefira estar com você, ao invés do carinha bonito e tatuado que eu sempre quis beijar. Pois prefiro o teu sorriso confuso e cara de quem estava meio perdido quando de repente me chamou para tomar uma cerveja no bar que a gente gosta.

Ah, pode ser também que algumas vezes a gente esteja um perto do outro, em bares diferentes, mas a gente prefira assim – sabe como é, é mais fácil do que contar sobre nós para quem ainda não sabe. Enfim, você tem esses braços grandes demais que me abraçam num sutil desejo de ficar mais cinco minutinhos. Não posso também – e nem quero – me apaixonar pelo teu sorriso confuso de quem me chamou para tomar uma cerveja e não sabia se podia. Acho, inclusive, que eu não poderia sorrir pra você, enquanto a tua barba encostava em meus ombros e teus braços - musculosos demais para mim - me abraçavam na véspera de Natal. Nem poderia imaginar como seríamos um casal bacana, daqueles que tá tudo bem, tudo bonito. Nem imaginar que você podia estar imaginando, enquanto tua barba encostava em meus ombros e teus braços me abraçavam com gostinho de mais cinco minutinhos, como seríamos um daqueles casais bacanas que tá tudo bem, tudo bonito, na véspera de Natal.

Eu não, realmente não disse. Mas sorri e imaginei.


Curitiba, 28 de dezembro de 2014. 12.40

domingo, 7 de dezembro de 2014

Há tanto tempo que eu não te vejo.

Espero que você não se importe, se quando eu te ver, eu perca as falas e meu coração palpite num eterno princípio de taquicardia. Não sei nem se vou sorrir - possivelmente não - mas calma, não por não querer, mas por não saber como fazer isso. Eu não sei, simplesmente. Será que os meus braços serão suficientemente grandes para te abraçar? Será que serão grandes o bastante para apagar essa saudade - mesmo que de ponta pequena - que existiu entre nós todos esses anos? O que fazemos - ou melhor, faremos - com o tempo que nos for permitido, para conversarmos sobre a vida que se passou ao longo desses 8 anos? 

Há tanto tempo anseio te encontrar perdido pelas ruas dessa cidade, com ar confuso e olhos de; "andei procurando por você". Nem sei como você está, se anda vivendo, sobrevivendo, amando, lutando. Como vai o teu inglês? Com que tamanho de saudades você convive todos os dias? Você vai partir de novo? Deixou de ser seu lar toda essa cidade verde? O que você viveu? Temos tanto o que conversar, quero saber de tudo, me conte qualquer coisa sobre você, pois eu já não sei mais.

Éramos tão jovens. Tínhamos planos doidos, impossíveis de se concretizar e minha saudade de ti já ardia antes mesmo de você ir embora. Aí você foi. E se tem algo que eu me lembre bem, é daquele dia no aeroporto, quando você teve que partir para - de fato - nunca mais voltar. Pois afinal, mesmo agora você não volta. Você nunca mais vai voltar e eu nem pediria isso. Tudo é tão diferente, eu não sei se você é o mesmo que um dia eu conheci e deixei partir. Afinal, com tão pouco, eu nunca poderia te fazer ficar.

Agora estou me perguntando e tenho quase convicção ao dizer que, embora o amor que sentia fosse juvenil, você foi a primeira história de amor mais bonita que eu poderia ter. Sonhei e chorei tantas vezes por você. Eu com meus poucos 14 anos de idade, tinha tanta certeza de que sem você era tão difícil. Mas o que eu não sabia, é que difícil era viver o que vinha depois de você. Que você sem nem saber, foi o começo de uma adolescência maravilhosa e recheada de momentos que, tenho certeza, poucas pessoas viveram. Você começou a colorir o meu mundo e iniciou uma aventura que até hoje eu vivo.

Nas minhas gavetas da mesa eu já perdi a conta de quantas dores eu guardei. Deixei ali textos que escrevi sobre ti e fotos que por acaso eu ainda tenho, alguns bilhetes. Deixei ali toda aquela vida instantânea que vivemos por tão pouco tempo. Conversei com estrelas procurando soluções para te esquecer. Deixei você enfurecido, assim como você também me deixou. Tinha tanto de ti em mim, que eu jurava transbordar e - bem, talvez transbordasse. Eu ia pra lá e pra cá no quarto, não dormia, sentia a tua falta. Jurava tanto que eu nunca iria te esquecer, que aí de repente você foi virando tinta desbotada no meu coração. Até que um dia eu não te senti mais, você havia virado uma lembrança bonita, da primeira história que posso chamar de romance.

É difícil dizer o que você significou para mim, tanto é que nunca mais ousei pensar em ti como um exemplo de desilusão - eu era tão nova! Nem consigo dizer o tanto que vivi depois que você se foi. Mas ainda lembro perfeitamente de ti - pelo menos daquele que deixei subir no avião 8 anos atrás. Lembro do seu olhar e do seu sorriso. Lembro perfeitamente dos seus abraços. Lembro das risadas que demos juntos e de tudo o que aprontamos.

Então por isso, garoto, por favor não ligue se eu não souber o que fazer quando eu te ver. Pois acho curioso como nós simplesmente não esquecemos algumas pessoas. Por isso, não ligue se meu sorriso não se abrir e se meus braços não forem fortes o bastante para um abraço.

Mas saiba que depois de ti, não teve uma única vez que fui ao aeroporto e não lembrei da vez que ali, meu lugar preferido, "te roubou" de mim.



Curitiba, 7 de dezembro de 2014. 00:17

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

(Quase) sempre eu soube.

- Eu não sou o homem da tua vida!

Acho que foi aí - ou pelo menos deveria ter sido -, o momento em que eu tinha de ter pensado um pouco mais sobre aquela imagem distorcida de nós dois.

Hoje acordei cedo, arrumei a cama, abri a janela e sorri para o sol de primavera. Em passos curtos e um pouco desajeitados, cheguei à cozinha e me servi de café. Preto. Duas colherzinhas de açúcar. Me sentei à mesa, enquanto meus pais faziam suas tarefas rotineiras. Observei de longe, absorta em pensamentos. Olhava o café sorrindo pra mim.

No que eu pensava? Bem, tão simples.

O que acontece é que esta manhã despertei cedo e em prantos. Meu sonho foi tão claro quanto um filme em alta resolução. Nele eu estava sentada numa longa fileira de cadeiras, quando me dei conta, era um casamento. Dele. Com ela. O pouco que eu lembro, foi que tentei impedir o casamento, assim como tentar entender o motivo deste. Mas já? Porque ela? Como assim não eu? O sonho acabou quando ouvi dos próprios pais dele, que ambos tinham uma conexão antes mesmo do nosso término. 

Fim. Voltemos ao café.

O café estava entre o amargo e o doce, do jeito como eu gosto. Apreciei a manhã, que ainda tinha um sol manhoso. O vento de quase boas-vindas ao verão. Analisei a vida, como ela é – ou ao menos como tem estado no momento. Respirei. Acho inclusive que aproveitei para comer uma fatia de abacaxi, mas receio não ter combinado com o café. Continuei com a minha xícara entre as mãos. De repente, minha mãe fala algo do tipo “... não da mais...” para o meu pai. Não prestei atenção no antes e no depois dessa frase quase desconexa assim sozinha. 

Pensei.

Voltei pro quarto, fechei a porta e liguei o rádio – naquela preguiça de escolher algo para escutar. Não lembro o que estava tocando. Olhei pra fora da janela. Pensei. Pensei que não é mais para o nosso ex-amor ser ferida aberta no meu peito. Não posso mais te contar os meus anseios e nem dividir a minha dor. Você partiu, pronto, acabou. Olhei pra dentro do quarto e meu gatinho subiu na cama, sua pelagem acariciou meus braços. Admirei. Voltei os olhos para o mundo exterior.

Cadê você, afinal? Soube que andou pelas ruas dessa cidade, de mãos dadas ou não, com outro alguém. Cadê você que diz tanto se importar, mas não se interessou mais sobre se meus cabelos estão compridos.
Pensei. 

Hoje eu sei - mas sempre soube - o quão difícil eu era de lidar, mas você também criou buracos dentro de mim e o que nos difere, é simplesmente que quando pra você tudo perdeu o sentido, eu ainda continuava tentando. Tentei tanto, que mesmo hoje, com mãos ensanguentadas e um coração remendado, ainda tento. Você atravessou a porta para nunca mais voltar. Não quis mais preencher o lado esquerdo da cama.

Respirei. Sequei as lágrimas das bochechas. Cozinha. Xícara. Café. Janela do quarto.

Não me venha com já estávamos em pedaços. Morremos, pois nos deixamos morrer. Insistir num amor morto é suicídio, mas matá-lo é crime e o matamos. Ambos sujamos nossas mãos. E agora você vem contar que achou um outro alguém, que ela que era um ombro amigo, virou o brilho que lhe faltava. 

Pausa. Chorar. Chorar. Chorar.

Mas aí, pensando bem, lembrei:
- Eu não sou o homem da tua vida.

Respira. Raiva.

De coisas que um dia já ouvi, vindas de ti ou de qualquer um, essa é uma daquelas frases que ecoam na minha cabeça. Se eu fechar os olhos, encontro a tua imagem totalmente apática, na porta da cozinha, e a tua voz ao me dizer estas palavras, me soa tão viva. Amar loucamente alguém que com tal frieza anunciou algo tão importante? Não que para sempre fosse, mas no momento, você era. Você nunca soube distinguir o que éramos no momento. Quem diria que um novo lugar te desconstruiria tanto?

Xícara vazia posta em cima da mesa.

Pensando bem, não, você realmente não é. Não porque não era o teu destino ser o homem da minha vida, mas sim porque você não quis ser. Não posso amar tanto assim alguém que simplesmente escolheu que não.

Olhos marejados. Sorri.


Curitiba, 5 de novembro de 2014. 2:43

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Hoje quis.

Eu esqueço de não mais procurar. Esqueço assim como esqueci do café gelado em cima da mesa no café da manhã, fingi que estava na praia e que o sol da manhã me abraçava sutilmente, me convidando para uma caminhada. Mas não caminhei. Hoje moro entre os prédios e faço rezas todos os dias, para que o sol venha bronzear um pouco a minha pele, iluminar um pouco o meu quarto. Peço enquanto caminho entre carros, que na próxima esquina eu encontre sem querer um novo motivo pra tudo isso. Pois assim como o bolo de forma inteira que eu não posso comer sozinha, não aguento mais ocupar os dois travesseiros da cama de casal que preenche o meu quarto. E meus dias solitários.

Hoje eu quis cerveja, um brigadeiro, um sorvete, um caldo de cana no parque, embaixo de uma árvore. Hoje eu quis sentir o cheiro do meu apartamento em São Paulo novamente. Saudades daquela vida macia e áspera. Saudade daquelas tardes ensolaradas e daquela solidão tão precisa. Do porta-retrato na prateleira da sala, do vizinho que gritava demais e da oportunidade de ser tão cheia, mas também tão vazia. Saudades dos dias longos, das sonecas de verão. E depois... Saudades da praia.

Quis acordar em outro lugar, talvez junto do mar. Parar de procurar a figura dele em cada esquina. Quis dividir o café, pois eu fiz pra dois. Quis dar significado pro meu dia, quis dividir o sofá e ver um filme bobo. Quis suar fazendo amor, quis apagar essa ânsia toda com uma risada que ecoaria pelo quarto. Quis justificar o medo, quis não deixar as coisas pra depois. Vem aproveitar esse sol comigo, tomar uma água de coco, andar de Havaianas pela beira mar. Segura o banquinho da minha bicicleta? Nem sei se ainda sei andar... Será que da pra pegar o carro e andar pela estrada, com os vidros abertos e sentir todo o mundo te dizendo como o céu azul?

O verão está chegando, o sol tá brilhando e o mundo nunca me pareceu tão pequeno. Vem aqui, que tem cerveja na geladeira, mas vamos tomar lá fora e rir um pouco da vida. Quero companhia, quero o travesseiro esquerdo preenchido. Cantar músicas entre sorrisos, sentir o calor abraçando o corpo enquanto eu peço pra ficar o ano inteiro, de janeiro a janeiro, até o mundo acabar. Será que dá?


Curitiba, 31 de outubro de 2014. 01:01

sábado, 4 de outubro de 2014

Olá, outubro.

Bem, enfim amanheceu outubro, que ainda não sabe que já pode sim esquentar, então aí nasceu manhoso, meio nublado, meio de um jeito errado. Passou. Passou tudo e o mundo, assim meio inseguro, disse num tom bravo: chega. Pois a primavera precisa florescer, no jardim e aqui dentro. Precisa cuidar todos os dias das rosas e amar cada flor que nasce. Cuide do que é bonito, pois é válido.

Sobre os dias que passaram depressa, vejo bobamente o tanto que me aconteceu, o tanto que ousei conhecer e, porque não; mudar. Mudar é bom, meu bem. Juro que se você começar a gostar mais do calor não te fará menos curitibano, mas sim mais vivo. Pode começar a preferir vinho de vez em quando, pode deixar de gostar da faculdade. Juro, de verdade – pode. 

Se você quiser, pode andar descalço no chão de madeira da casa da vó e sorrir pra quem tá no elevador, pode até ser interessante. Cor de cabelo, de estilo, de cidade ou país, até mesmo de nome nas redes sociais, mas em horas assim é essencial que mude. Mude tudo de lugar, de caminho, de opinião. Mude o prato preferido e a melhor música. Conheça filmes e pessoas, mas mude.

Antes que termine o dia ou até mesmo o ano, tenha certeza que mudou o bastante, pois mudar é bom. Sabe, te conto que nessa vida eu entendi uma coisa: tem que crescer. Tem de entender seus passos e suas posições, tem de sorrir. Mesmo que o coração esteja em pedaços, meu bem, tem de sorrir. Tudo nessa vida se ameniza quando se sorri e não te preocupa, pode até piorar, mas depois melhora e tem de deixar melhorar, por isso mude.

Veja que já é outubro e estou querendo ir à praia, pra amar cada pedacinho dessa minha vida. Quero gritar, ser inteira, pois sabe? Tem que querer. Somos tanto e vivemos pouco. Tem de gostar de sorvete, de sol, de sorrir. Tem de juntar amigos pra uma cerveja, pra almoço ou fundue. Só não pode se afastar, tem de estar ali ó, do ladinho. Meu bem, eu juro pra você, por mais que grite de dor a noite, tem de agarrar fundo o amor de dia. Tem que amar e ser amado, mas nunca implore amor, isso não se pede, se ganha.
 
Mais que tudo, meu bem, seja feliz. Ser feliz é necessário e torna a tua vida extraordinária e honestamente, nunca aceite nada menos pra ti do que o extraordinário. 

Assim sendo, seja bem-vindo outubro.


Curitiba, 1º de outubro de 2014. 22:07

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Te levando para o nunca mais.

Eu espero vivamente que esta partida não te doa, pois honestamente, não quero pra ninguém essa dor no peito que eu tenho agora. Foram dias, meses e já vira o ano, em que a ardência aqui dentro me consome muitas vezes. Nesse vai e vem de aventuras e amores, eu nunca entendi ao certo se, eu podia ou não, enfim seguir em frente. Tive muito gosto estranho na minha boca e aguentei em meus lábios do tabaco ao gole de whiskey.  Permaneci intacta emocionalmente, pois vai que? Vai que volta, vai que eu faça falta. Vai que ainda me ama.

Pois assim, bem sem querer mesmo, eu ardi por perceber que não. Não te doo mais o peito, minha ausência em ti é clara e a tua vida seguiu, de uma maneira que a minha não. Você sorriu do momento que saiu do meu prédio, carregando contigo toda a tua certeza: não voltar. E acho que eu nunca realmente acreditei nisso, ou melhor, me custou acreditar. Teus olhos nunca mais me procuraram e tua boca não ousou mais me chamar. Eu virei página virada e de mim você guardou apenas uma pequena coisa: recordação. Enquanto que eu guardei saudade.

Eu sentei agoniada no quarto, na sala, no carro. Chorei. Passei em frente ao teu antigo prédio. Procurei sinais. Conversei. Busquei saber se de fato era verdade. De noite enquanto vinha toda atropelada para casa, me dei conta que nem o rádio liguei e nem percebi o silêncio. Cheguei cansada, dormi, acordei e não quis trabalhar, não quis conversar. Simplesmente não. Enquanto aguardava no hospital, por um atestado de motivo bobo, me deparei com o que eu estava sendo e, porque, tão amargamente guardei esperanças de algo que não volta mais. Evitei dores e amores, evitei viagens e para todos justificava apenas que não dava.

Eu, assim desse jeito mesmo, simplesmente parei no tempo. Dessa dor que eu carrego e ninguém entende o motivo de eu ser tão frágil. Desse meu jeito de que vou sorrir sim, mas meus olhos vão brilhar de lágrimas. Desse meu jeito todo errado, fiquei sentada esperando que talvez um dia você percebesse que eu ainda era importante, enquanto que para você, a rota já tinha mudado e a vida nunca estivera sendo mais bonita. Eu deixei de ser a tua pessoa preferida, enquanto eu ainda acreditava que você era a minha. 

Nunca doeu tanto partir de alguém como tem me doído partir de ti. Eu deveria ter feito isso antes, mas nunca tive coragem. Mais do que partir de ti, preciso te fazer sair daqui ó, de dentro. Preciso te arrancar, te machucar, não te fazer mais voltar, eu não mereço mais isso. Enquanto brincava de fazer café e comida pra um, eu fingia que te esquecia, mas te procurei em cada copo de cerveja vazio, em cada música de coração partido. Mais do que nunca nesse momento eu preciso ir embora, não é mais justo você continuar a ser pra mim, o que eu nunca mais serei para você.

E por favor, não me procure mais. A tua ausência me doerá bem menos que esse teu leva e traz.


Curitiba, 23 de setembro de 2014. 01:04

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Do que é o amor.

Não tenho receio desses talvez cheios de certezas que desfilamos por aí. Pode abrir o peito e falar com sinceridade, pode deixar que eu aguento o grito. Pode sentar e desabafar, pode chorar. Eu não vou me impressionar com a receita de churros ou com o carro conversível  - posso até achar realmente legal, mas me impressiono mais com o sorriso, com o convite no meio da noite para um brownie, pois de repente deu vontade e o filme tá chato. Com a mensagem mais sutil dizendo: “você já dormiu, né xarope?”. É já, já dormi. Mas pode deixar que eu acordo, pois vale. 

E sabe o que mais? Acordo com um sorriso se veio só “porque sim”, porque foi bom, porque estamos bem. Estou de corpo e alma e quando quero, eu quero. Mas você que não me doa o coração, pois aí já não é justo, sabe? Não é justo doer algo que não é teu. É assim mesmo que a doçura dos dias nos escorrega por entre a vida, nos pequenos “sim, sim, eu quero”. Se quer vem, que se a gente gosta qualquer hora é hora e qualquer cama de solteiro vira king size. Não te preocupa se vier molhado da chuva, pois do chuveiro sai água quente e sim, podemos nos molhar juntos. Pode trazer comida, cerveja, doce, filme. Pode trazer até mesmo cigarros e histórias, não importa. Mas traga teu corpo, pois o encaixe no final de um dia cansativo é o melhor encaixe.

Sabe, faz do meu perfume o teu preferido e da minha porta teu aconchego. Que tá tudo bem se o ônibus atrasou ou o metrô das 18 horas é cheio demais. Tudo bem que a cerveja com os amigos foi até mais tarde, pode vir, mesmo que seja pra dormir apenas. Antes a tua companhia apenas pra dormir, do que esse apartamento vazio. Eu gosto de dançar com a minha própria sombra, mas se tiver o teu corpo pra me guiar na dança, é melhor ainda. Tá tocando Elvis, mas a gente pode dançar Clapton se tu quiseres. Pode ser até Novos Baianos, porque não? 

O que quis te explicar é que tá tudo bem se o mundo desaba, se as coisas já não vão tão bem e se o que fomos há três anos atrás já foi mais fácil. É que sabe, dizem que amor é assim mesmo, às vezes dói, às vezes você desiste e aí você vê a pessoa e pronto, desistir do que mesmo? Comigo é assim pelo menos. É que amor tem que ter cuidado, tem que polir, tem que ter carinho. Às vezes ele te prega peças, mas aí a gente revida e prega peças no amor também. O que não vale é dizer que vir aqui em casa só pra dormir não te convém, que aí quer dizer que o amor tá ficando murcho e nada do que murcha vive muito mais. Sabe, tem que querer, entende? Tem que sentir que mesmo quando a cerveja com os amigos tá incrível, tá faltando uma companhia ali e que essa companhia faz toda a diferença. Amor é assim mesmo, tem que ter espaço pra respirar, tem que saber separar, tem que saber juntar.

Amor é continuar tendo tudo o que se tem quando se é sozinho, com a diferença que teu coração bate forte quando chega o momento do encontro, quando o melhor sorriso do mundo se abre pra ti. Amor é assim mesmo, mesmo confuso o essencial é não deixar morrer, sabe. Amor quando morre é morte pra quem continua a sentir. Amor é bonito demais, assim como as flores na primavera e claro, às vezes fica meio cinza, perde flores e folhas, mas tá ali ó, tá vendo o Ipê amarelo? Então, amor é tipo ele: vivo.




Curitiba, 16 de setembro de 2014. 00:41

domingo, 24 de agosto de 2014

Socorro.

“Socorro eu não estou sentindo nada”, uma vez disse Arnaldo Antunes numa música muito boa, inclusive. É sábado de noite – madrugada de domingo na realidade – e depois de um dia longo de trabalho pensei que nada mais justo passar batom vermelho e ficar bonita pra andar por aí. O problema, talvez, tenha sido exatamente esse – ficar bonita por dentro também. Acontece que depois de um dia inteiro de expectativas e sorrisos bestas, menos de duas horas depois estou de volta e bem, confusa.

Engoli três vezes pr’o choro desaparecer e pareço uma boneca Barbie esquecida num encontro, com os saltos na mão, o cabelo ainda bonito e o batom um pouco borrado. Fui à geladeira, peguei a cerveja e voltei pro quarto. Pedi socorro – real e mental – mas em nenhuma tentativa fui atendida. Eu queria ser lembrada. Lembrada de verdade, com vontade, pra já e não pra depois, para até o sol se pôr, pra até amanhã cedinho, em qualquer lugar – menos na sua casa, onde tudo pode acontecer, menos romance. Quero mão dada de verdade, vontade a flor da pele. Fica mais um pouco, porque tão já?

A cerveja tá acabando e só quero o verão de novo, cansei do frio. Peguei dor de garganta, minhas mãos e lábios estão ressecados e meu casaco creme simplesmente está todo manchado e não tenho a mínima noção de como ficou assim. Me deixa, que quero vestido e perna de fora. Quero sorrir, será que dá? Mas de verdade, sabe. Quero um “desce, tô aqui” e também “pede folga, quero te levar pra praia”. Me leva pra qualquer lugar, mas sai desse tédio, sai desse leva e trás. Assim não dá, meu bem. Meu coração transborda de qualquer coisa e dói, pois todos eles nunca querem ficar e quando ficam eu quero ir. O que tá errado, hein?

Socorro que já não estou sentindo nada – ou tudo ao mesmo tempo. Me deixa, me esquece. Fica. Fica que o sorvete vai derreter e fiz café pra dois. Mentira, não tem café. Tem cerveja gelada aqui em casa e no bar, vamos no bar primeiro e depois, quando tivermos sono, você vem pra casa e bebemos aqui. A gente senta no sofá e acende um cigarro e conversa sobre tudo – inclusive nós. E aí você vai sorrir e vai dizer que sorte termos nos aventurado nessa vida juntos. Que sorte não estarmos sós e sim a sós. E quero que o sol bata na janela a tarde inteira e que elas sejam longas e as conversas mais ainda, que o calor nos abrace e que sejamos maiores e melhores e, e que toda a essa amargura do meu peito se vá assim como poeira em ventania.

Socorro que eu quero algo bom, mas não sei mais se sou capaz disso.


Curitiba, 24 de agosto de 2014. 02:05

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Inteiro

Esboço o mundo que criei tão detalhadamente para o que costumava chamar de nós. Carreguei sozinha, pois pensava assim, o peso do que éramos, do que podíamos ser e até do que não seríamos. Lutei contra correntezas e deixei esquecido, em caixas de sapatos, o que nós éramos no começo: livres. Tão livres que sempre voltávamos para o mesmo sofá no final da tarde, com direito a cerveja, cafuné e casos do dia que se passou. Mergulhávamos dentro de promessas o simples desejo de sermos felizes, cumpríamos com afinco a vontade de estarmos juntos, para o que der e vier. 

Em determinado momento, nesse mundo tão bonito, me enganei com a nossa liberdade e passei a acreditar que nós dois tínhamos de ser apenas um e foi aí que o castelo começou a se desmanchar, começando pelas paredes, depois as pilastras e por fim, em meio aos destroços em que nos encontrávamos, construí um fosso fundo, acreditando que assim nos salvaria. Me enganei. Secamos a água, te mantive acurralado e esqueci que qualquer nó que agora tínhamos, um dia foi um bonito laço de algum presente que eu havia te dado. Eu cumpri com o que prometi para mim mesma – te deixei ao meu lado, mas esqueci do mais importante: seu sorriso.

Escrevi peças, diálogos, ensaios sobre o que um dia fomos. Colori em desenhos a sua alma, tinha todas as cores que eu pude combinar. Seus traços eu analisei minuciosamente, fiz como você deveria ser: inteiro. Nunca mais cansei de te traduzir em palavras prontamente sólidas e delicadas. Procurei, sempre, te fazer completo no que eu dissesse, mas nunca ao te descrever eu poderia esquecer nós dois. Pois quando te conto, eu te pinto e te escrevo da maneira mais bonita e ainda, inutilmente, acredito que uma das minhas partes preferidas em você era o fato de você poder ser o que era comigo ao seu lado. 

Hoje, engoli em seco e sem querer, você disse “vai, veja isso”. Sutilmente eu sabia exatamente o que era o que você me mostrava, sem mesmo antes ver, sentir, ouvir. Passei a te traduzir em músicas e fingia que você o fazia igual. Dizia sobre você escutando Rolling Stones e Johnny Cash e Lenine. Me perdoe, eu te engoli e deixei de ser sangue, passei a ser ar em suas veias. Eu te desmontei, te reconstruí e ainda procuro por pistas que me façam levar até você novamente. 

Sou ilha afundada que procura por portos e navios, por músicas que deixamos para trás. Quero te libertar das caixas de sapatos velhos e dos casacos esquecidos no armário. Quero te libertar daqui de dentro, quero que você dance, que sorria, que escreva, cante. Preciso que você seja completo, pra eu entender que preciso voltar a ser também.


Curitiba, 4 de julho de 2014. 14:19

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Histórias que poderiam ser reais.

Passava das duas da manhã e a campainha soou forte. A menina estalou os olhos, sentou na cama sem entender o que acontecia e foi zonza até a porta. Errou a chave uma, duas, acertou. Acendeu a luz, abriu a porta. Olhou, analisou, acordou. Do lado do corredor um garoto alto e magro, de cabelos e olhos castanhos, com roupas de quem estava em casa e chinelo de dedo, a olhava.

- Eu estava aqui por perto, ia pedir um táxi pra voltar pra casa, mas pensei em passar aqui antes. – disparou o garoto – Ver como anda você.

A menina ainda o olhava com olhos arregalados. Sua boca abria e fechava, procurando palavras, argumentos ou qualquer coisa.

- Desculpa. Sei que não deveria ter vindo. Foi impulso. – continuou ele, percebendo a falta de reação dela.

Se encararam mais uns instantes e por fim a garota conseguiu falar.

- Não, tudo bem. Só foi uma surpresa, não esperava por ti... Por ninguém na realidade. – olhou pra dentro do pequeno apartamento, que pelo qual estava uma bagunça – Se quiser entre, por favor.

O garoto entrou e esperou ao lado dela, até que ela fechasse e trancasse a porta. Ela então acendeu a luz da sala, abriu a janela e se sentou no sofá. Ele a imitou e sentou ao seu lado.

- Então, o que estava fazendo por aqui? – enquanto acendia um cigarro – Quer uma cerveja, um vinho, alguma coisa?
- Saí com uns amigos aqui na rua e terminamos no bar da outra esquina. Quando fui pedir um táxi olhei pro seu prédio e resolvi passar aqui. Aceito uma água.
- Ah legal! A rua anda bastante agitada nesse começo de ano, o calor atraí as pessoas. Ando bastante por ali também, saio cedo do trabalho então sempre posso combinar uma cerveja de final de tarde.  – abrindo na pequena cozinha a geladeira e pegando uma garrafa de água.

Ela sentou no sofá de novo e entregou a garrafa para o garoto. O analisou por um tempo, soltando devagar a fumaça do cigarro.

- Seu cabelo cresceu. – disse por fim para o menino.
- É, deixei pra ver como ficava. O seu também cresceu, tá enorme. Mudou algumas coisas por aqui também, começou a escrever no quadro. – analisando a pequena sala.
- As coisas precisam mudar. – sorrindo - Mas me diga, de verdade, o que o trouxe aqui?

A garota parecia perfurar os olhos do garoto, como se antes da resposta dele, ela já entendesse perfeitamente o que acontecia ali.

- Soube que vai voltar. – olhando os pés.
- Sim, cansei daqui. Sinto falta de casa, das pessoas, da nossa cidade. Lembra como éramos felizes? Sinto falta do sol iluminando nossos dias. De tudo ser melhor. – ela disse esmagando o cigarro no cinzeiro.
- Eu sinto falta da gente. 

A garota simplesmente parou e tentou compreender o que ouviu. Seu coração saiu repentinamente pela boca, apertou uma mão junto da outra e virou o rosto para o lado tentando evitar o olhar do garoto.

- Depois desse tempo todo? – perguntou ela.
- Nunca deixei de sentir, – fazendo a garota o olhar – mas eu simplesmente não conseguia falar contigo. Afinal era um erro eu sentir falta, pois éramos um desastre juntos. Só que agora você vai embora e eu...
- E agora você irá ficar sozinho. Assim como eu fiquei quando terminamos, não é mesmo?

Os dois se olharam e mesmo com lágrimas, ela aguentou o olhar dele. Ela havia esperado por esse dia por muito tempo, ela pediu tanto para que ele sentisse a sua falta. Mas doía muito saber o tamanho dessa falta que agora declarava existir.

- Tentar te esquecer foi a coisa mais difícil que eu já fiz e agora você vem dizendo que sente e sempre sentiu falta, que enquanto eu tentava seguir a minha vida você também tentava e também não conseguia? Que durante esse tempo todo que eu tentei pintar de azul o meu céu, que esse tempo todo eu sentia desabar quando eu via que você tava bem e eu continuava ali, lutando contra a maré. Eu só tentei te esquecer, esses meses todos. Dia e noite.

Ela soluçava, suas bochechas rosadas exaltavam mais ainda seus olhos. O garoto a olhava com ares de quem não sabia o que dizer, apenas pegou sua mão e enxugou suas lágrimas.

- Não me culpe por tentar sorrir sem ti e nem você por tentar viver. Mas sentia saudades. Sentia seu cheiro nos meus travesseiros, escutava sua voz de madrugava. Te procurava de noite, te encaixava. – enfim disse o menino.
- Você não sabe como tudo aqui doía e ainda dói por você estar tão longe. Meu bem, você ainda é fogo dentro de mim. Eu implorava todos os dias para que você voltasse, eu sentia raiva do mundo por ter te apagado da minha vida antes de eu te apagar da minha memória.
- Então volta, meu bem. Volta.
- Eu nunca fui embora. Foi você quem quis partir.


Curitiba, 21 de julho de 2014. 01:03

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Desatados.

Eu te imploro – vá! Abre a porta e vá, não me importo pra onde, mas não volte mais aqui. Já senti desgosto demais acreditando que tudo isso um dia viria a nos calhar, mas acontece que para ti isso nunca acontecerá. Então eu te juro, pega o seu sorriso esbranquiçado, pega suas mãos tatuadas e sua voz doce, faça as malas e não queira mais voltar. Não quero mais ouvir sobre o conto de fadas que criou para nós, sei que loucamente desejamos algo maior e mais completo que apenas isso que vivemos – você não pode mais roubar meu coração.

- Deixa isso – sussurrou a garota olhando o chão.
- Queria poder lembrar da gente. – ele a olhava confuso.
- Nunca estivemos juntos! Você não pode... Você não tem o direito de lembrar do que nunca foi. Eu fui sozinha, você me deixou sozinha.
- Não era pra ser assim. – o garoto fechava a sua mochila e a colocava em suas costas.
- Por favor, só te peço pra deixar isso. Vai. Vai antes que seja tarde demais. – pegando da mão do garoto o que segurava.

Você não pode levar mais nada de mim, nada da gente. Guarda no teu coração o vazio, o mundo que a gente perdeu de viver. Deixa minha dor e solidão comigo. Vai embora de uma vez, por favor. Sai da minha casa, sai da minha vida, sai daqui de dentro de mim. Se apague, por favor! Apaguem minha memória, desapareça! Sai, sai que nada aqui te pertence, nada aqui  te pertenceu. Deixa meu coração, deixa. Vai! Deixa eu me esquecer de você também.

No chão uma foto, era começo do inverno. Dois sorrisos serenos estampavam, dois pares de olhos brilhavam, duas pessoas – eles.


Curitiba, 27 de maio de 2014. 20:51

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Crônica dos óculos meus na casa tua.



- Tu deixasse teus óculos aqui em casa...

É. Mas não foram apenas meus óculos que deixei na tua casa. Deixei mais. Eu deixei a mim, deixei segredos, deixei risadas, deixei nós de cordas. Eu esqueci no teu sofá uma gargalhada gostosa que demos e deixei jogado em tua cama nossos perfumes misturados. Esqueci de te contar que eu não me apeguei, mas gosto profundamente de você. De tudo, de qualquer coisa, será que dá pra entender? 

Eu sei, eu sei. Não há lutas de amor por aqui, você não vai pegar a tua espada e dizer que por mim ficará. Ah, quem dera. Sei que não te valho a pena o tempo desperdiçado. Somos um passatempo, gostamos de tal. Gostamos de não termos compromisso, de não termos nós atados. Somos assim. Fomos moldados para sermos assim. Então tudo bem, juro. Olha nos meus olhos e diz que não é amor, que nunca será. Que eu vou continuar esquecendo objetos e gestos na tua casa. Que cabelos vermelhos vão colorir teu chão e que vez ou outra você vai olhar pro sofá ou pra rua da tua casa e vai sentir falta da minha companhia. Mas tudo bem.

Tudo bem nos deixarmos no vazio, ignorarmos o pouco que montamos juntos, impedindo de crescer. Tudo bem não sermos mais, não nos permitirmos de ser. Você vai embora e eu finjo que não ligo. Finjo que tudo bem, sempre estará tudo bem. Sempre? Não posso te deixar ver o que meu coração derrete. Teus olhos dizem fica e minha boca pede mais tempo, porém sabemos que não. Caminho para a porta em passos vagarosos, mas não escuto nada que me impeça, brinco que não me importo enquanto você não deixa a nossa vida a dois começar.

Você sabe que eu não vou embora de verdade e você também não vai. A gente não vai, a gente não fica. A gente vive, vive, apenas vive... Alguns amores são assim mesmo; inventados.


Curitiba, 24 de fevereiro de 2014. 1:27

terça-feira, 13 de maio de 2014

O que muda.



Sejamos sinceros – o tempo muda e você se desnuda pra tentar acompanhar. O mês passa rápido e só nos damos conta quando olhamos no calendário e a promessa de ano novo foi feita há cinco meses, assim como a bicicleta do melhor amigo esta encostada na garagem desde o último dia do ano passado e, veja bem, foi exatamente neste dia que se percorreu o centro da cidade com um cara muito legal, mas a aventura estava toda errada.

O tempo passa rápido e enquanto comemos o bolo e o brigadeiro não nos damos conta, mas um mês depois a balança surge com indesejáveis quilos a mais. O semestre vai acabando e a copa vai chegando, a época de pinhão já quase se vai novamente, porém o quentão se torna presente quanto mais julho se aproxima. O segundo cobertor ainda não foi tirado do armário, mas com certeza não foi por falta de frio, acontece que vez-em-quando aparece companhia na cama.

Admita, vai. O tempo muda e a gente tenta acompanhar. O meio do ano vai chegando e só pensamos na cor de cabelo que já esta gasta. Os meses foram passando e antes o que eram dois dias de agonia profunda sem a presença, hoje já faz oito meses que a ausência se condensou. Veja bem, daria até pra dizer que parou de doer! O tempo passou e a pantufa foi estraçalhada pelo cachorro filhote, alguns filmes novos foram assistidos e outros tantos cheinhos de amor, foram revistos. O cabelo cresceu, o peso aumentou, o vestido trocou, a vida mudou.

Nos desnudamos de tudo por uma única vontade: não ser deixado. Aí acontece que dançamos conforme a música, deixamos de arder e de sentir falta do que já não pode caminhar conosco. Decoramos novas músicas, pois os tempos são outros e encontramos novos braços, pois é necessário ser feliz. A cerveja é sempre bem-vinda, assim como doces. É necessário, antes de se reclamar dos quilos a mais, perceber que cervejas são ótimos motivos para longas conversas no bar. Conduzimos então a vida em uma valsa lenta e enquanto os dias se tornam ontem e os planos se tornam esquecidos ou realizados com rapidez, tiramos nossas fantasias para ser tudo aquilo que precisamos no momento:  novos nós.


Curitiba, 13 de maio de 2014. 00:38

sábado, 29 de março de 2014

180 dias sem você



Fui engolida pelos dias que se passaram, eu dobrei a esquina e você deixou de estar na minha vida e a sua ausência me interrompeu tão abruptamente que eu não sabia o que dizer. A sua ausência nunca me foi sutil. Sutil é o seu desaparecimento no meu dia-a-dia. Atravessei a rua sem você, peguei metrô e bebi cervejas, tomei sorvetes e ri, ri muito sem você. O tempo ainda corre e admito de coração apertado que o tempo continua sendo tempo, mesmo que você não esteja aqui para contá-lo comigo.

Eu não me dei conta, você se deu? Perdi a conta dos dias que se passaram sem você. Ainda existe uma mescla, boa e ruim, do tempo que se arrasta ou passa rápido demais. Me dei conta que você não estava lá quando meu mundo se perdeu. Também não estava junto de mim quando recebi meu primeiro salário, quando fiz a tatuagem da qual sempre tanto falei. Você meu bem, deixou de estar. Simplesmente.

Corri. Corri contra o tempo e a favor dele. Abracei diariamente a saudade que senti de ti e acontece que você ainda me destrói. Eu não sou capaz de me desfazer das lembranças de você. Não sou capaz de amar de novo, de tapar o buraco que você fez em mim. Eu abracei o mundo, meu bem. Eu tive de aprender a rir até a barriga doer, aprendi a pegar táxi e a voltar de madrugada sem você. Abri a porta, acendi luzes, matei aranhas, espantei o frio e congelei feijão pra um. Me perdi, me esqueci e quis fugir. Fugir pra longe, onde você não seria capaz de me encontrar. Mas ainda sim, quando eu corria, eu sempre queria que você corresse atrás de mim.

Hoje ainda dói em mim a sua ausência, sua vida que não se cruza mais com a minha. Suas histórias que meus ouvidos não podem mais escutar e seus olhos que não brilham mais quando veem de encontro com os meus. Parece fazer tanto tempo, parece que tínhamos tanto tempo. Tínhamos tanto a fazer, tanto a amar e ainda sim recuamos. 

A vida, meu bem, encontra delírios pra tentar viver sem você. E para ser sincera, que essa dor crônica que eu sinto acabe logo. Hoje, marquei amargamente no calendário o 180º dia sem você.


Curitiba, 25 de março de 2014. 15:46